Desejaria ficar no alhures desconhecido
Sem lugar, sem sol e sem luar
Escondendo-me, assim, da ignóbil crueldade
Protegendo-me, inutilmente, da amargura e da ternura
Sentimentos próprios do estar e do ficar.
Psicanagem Individual I *
(entrevistas preliminares)
Ele chegou ao consultório de ar honesto e austero
Foi recebido por um Sujeito alto, magro e bomboleante
Que entre seguro e hesitante
Coçou a pálida calva cor de cera e permaneceu espreitando-o com olhar maçante
Após alguns encontros, palavrórios e muitas queixas
do visitante
O tal sujeito vagamente alegou total falta de horários
Aliada à incompetência do candidato para saldar todos os seus altos honorários
Despediu-se dele, então, retirando-o delicadamente de sua luxuosa cadeira
E o expulsou sutilmente do seu honrado consultório
Não sem antes, porém, de embolsar avidamente um parco resto de seu dinheiro.
*da série cenas psicanalíticas cotidianas
Psicanagem Individual II *
Ela deitou-se arrogantemente na almofada da moda
Esperando uma acolhida suntuosa e digna
Alguns momentos e horas de silêncios depois
Foi subitamente despertada pelos roncos e bocejos
Terapêuticos e sonolentos do Algoz
*da série cenas psicanalíticas cotidianas
Psicanagem Individual III *
Ela deitou-se provocativamente na almofada do desejo
Ansiando por um romance com personagens perdidos, insepultos e ancestrais
Com o passar do tempo foi lentamente seduzida e dolorosamente possuída
Através das falácias lúbricas do impostor voraz.
*da série cenas psicanalíticas cotidianas
Lacanagem *
Ela deitou-se esperançosamente na almofada do descaso
Ansioso por terna ajuda e acolhimento
Alguns minutos e muitos rugidos de sintaxe depois
Foi subitamente despedida pela hora lógica
Que o relógio do pecúnio marcou.
*da série cenas psicanalíticas cotidianas
Psicanagem em grupo *
O mudo grupo reunia-se em constrangido silêncio, atrás da pura técnica
e da fascinante moda
Ávido de brilhante estrelismo e de inovadores modos
Agrupava-se já há muito tempo, há alguns muitos anos após
A incessante atuação do diretor de cena de cena
sempre requeria
E suas reveladoras intervenções de praxe geralmente percebia
Até que em um determinado dia, todo o honorário desmoronou-se em reles
pancadaria.
*da série cenas psicanalíticas cotidianas
Palacianos
Querem transformar a viva filosofia em bolorenta filologia
Iludem-se pensando que a verdadeira psicanálise consiste em estéreis
elucubrações sintáticas
Desejam afastar-se da observação da alma humana para reverenciar poeirentas
gramáticas
Desconhecem que a Verdade é fruto legítimo da contingência histórica
Que emoldura as ruidosas e múltiplas manifestações da moda
E, melancolicamente, insistem em substituir a virtuose terapêutica por
pífios exercícios de retórica
Deviam ser Bibliotecários.
Bazar
Você que sofre de “stress” ou nervosismo, ansiedade, insônia, angústia e nostalgia
Venha logo provar um pouco desta infalível e infindável magia
Que tenho toda a meu dispor e em meu poder, para oferecer
Soros de querer, eletrossonos de viver, fórmulas secretas para tudo ser
Relaxamento, regressão, desdobramento, todo o tipo de técnico encantamento
Remédios importados do exterior em pleno esplendor, dotados de incisivo fulgor
Para curar todos os males e aliviar qualquer imponderável dor
Venha, venha logo pois estou avidamente esperando
esse momento
Para ver a sua alma, emprestar-lhe calma, espreitar-lhe o sentimento
Antegozando ansiosamente as sessões terapêuticas de régio pagamento.
Intelectual
Eu realmente não o entendo
Não compreendo como súbita e agilmente
Passa do Espírito para a Matéria
Sem nenhum escrúpulo ou relutância
Estando ele conversando celeremente sobre assuntos
elevados
Passa, imperceptivelmente, como a falar de vãs vulgaridades
Temas filosóficos fundamentais tornam-se odiosamente comuns
Pela simples exigência da vaidade, embebida de involuntária comicidade
Não, eu verdadeiramente não o entendo
Não consigo perceber por quê isso acontece
Ainda mais, julgando-o um intelectual refinado
Cônscio do valor e influência de suas assertivas diferenciadas
Sim, tudo isso é, realmente assaz inexplicável
Dolorosamente constrangedor, desconfortavelmente comprometedor
Ainda mais que ele é o senhor da Razão, mui consciente e seguro de toda ação
E, sempre, ávido e excitado para exercitar qualquer monótona repetição
Não! Definitivamente eu não o entendo...
Propaganda Eleitoral
Surgem na tela opaca da televisão
Rostos simpáticos, tensos e transfigurados por ideais
Cheios de promessas, deveres e empenhos, patriotices sazonais
Fisionomias ressentidas e feridas, foragidas e fugidias
Rostos reluzentes e túrgidos, enganando com bonomia
Dirigem-se com muito vigor a todo o tipo de gente
Falam e discursam com muito sentimento, emoção e calor
Numa tosca teatralidade de circunstância ambiente
Fingem querelas com ardor, debates sem pudor, tudo o que deles o grande
público exija e queira
No melancólico e vazio desempenho desses reles atores de feira
Apesar da imagem ser apenas impositiva, inoportuna
e ofensiva
E da duvidosa moral não se ter notícia de que possa exalar algum incômodo cheiro
Convém, por cuidadosa prudência, retirar da sala tudo o que represente valores,
jóias ou dinheiro.
Exigência
Espreitam-me atentamente até os mais sutis movimentos
Tais como o empunhar o copo, cambalear o corpo e desfazer palavras
Destoar canções, desfigurar conceitos e inadequar opiniões corriqueiras
Olham-me nos olhos de minha ‘alma
Exigem-me retemperar e manter a esquecida calma
Constituir-me, enfim, como um adequado ser social
E eis que, imbuído da alma dos “shoppings”
Embrenho-me decidido, na enorme aldeia global
No grande vazio do Ser, mergulho no profundo lodaçal.
Destino
Meu destino, qual será?
Será uma existência palpitante e venturosa
Guardada por rotundos querubins do prazer?
Ou, melhor, uma vida calma, doméstica
A se arrastar aos sábados pelos “shoppings”?
Ao grande confessionário privado temos nós,
Burgueses, obrigatoriamente, que nos submeter
Nos dias de hoje, não sabemos o que virá amanhã
Manhã alegre de consumo ou noite de treva financeira
De qualquer maneira, pretendo ser feliz
Desde que isso preserve a minha individualidade
Afinal, o que estou dizendo?